segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Palavra vazia em promessa sincera, que esvazia a promessa insincera. No fundo somos tão efêmeros, e como dois e dois, somos dois. Dois que sonham em ser mais que dois. Mas que na soma dos dois, somos tão somente dois, como a soma de todas coisas da vida. A gente faz eco. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

primaveril

afinal o que somos pra além dessa necessidade de engolir o mundo, senti-lo digerir, e produzir batimentos?
a primavera que grita do lado de fora. as cigarras, os flamboyants, os pedaços de flores, ainda úmidas, tentando penetrar e colorir as calçadas cinzas.
o que somos senão essa tentativa de tornar os inertes, em coisas vivas?
a tinta morta, que produz um quadro novo, esse grafite no papel branco, essas palavras mortas, na tela fria de um computador. são vazios vivos.
o que somos senão sensações perambulantes, objetos inanimados que retornam à vida, assim que a toca.
apesar do desejo ser, em essência, pura perda. tem sido bom achá-lo, por aí.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Ensaio sobre o avesso, e memórias.

Tenho medo quando vira a meia noite. O dia começa com a noite. O começar no seu próprio fim. É um revés que estamos tão acostumados. Nem notamos. Alguns grilos ressaltam o orvalho que supomos cair. É o sereno de mãe. Daquele que escutamos desde novos a prevenir, na chegada da madrugada. Não sabemos o que é, porque não o vemos. Mas podemos sentir. A noite tem dessas coisas: com menos luz olhamos menos os detalhes banais; que com a claridade latente da luz reflete com tanto ardor nos olhos. A vida de noite tem mais silêncios, mais pausas. Dá vontade de migrar pro mundo dos sonhos, logo. Ao mesmo tempo, é bom viver dos silêncios e se alimentar de suposições . Desejar em silêncio. Sempre desejamos em silêncio, eu sei. Mas de noite é um silêncio mítico. De noite supomos muitas coisas. Só podemos ver clarões e borrões das janelas acesas. Corujas que piam. Morcegos que passam como lampejos. Gosto da monocromia noturna. A estrela transparente, no céu preto. O contrário em evidência. O revés dos olhos. O negativo dos olhos. O ver com preenchimento. A noite é isso pra mim... Um revés, como naquele triângulo sem começo nem fim. 
A gente começa o dia de noite. E foi nesse revés do contrário das coisas que eu me sentia criança. E é assim, até hoje. O contrário do contraste, sempre tão evidente em si mesmo, para mim já deixou de fazer sentido. 
A noite a gente lembra que não desejamos quem mais amamos, e que somos homens e mulheres , e bichos. Ecoando a lua cheia. Atrás de deleite, e prazer. A noite lembramos pelo revés do sim, o próprio sim. Lembramos que tudo é simbiose, gestação, e que somos separados por um umbigo e pelo tempo. A dor de separar é tanta. Vivemos no mundo com um furo, um buraco negro que dá no ventre e desemboca no coração. A noite esquecemos de sentir fome, esquecemos do mundo, sentindo sonhos. Ser criança num mundo de adultos. A noite é inocente, mas a gente adora tirar essas inocências, todos os dias. Lembrar de não desejar quem mais desejamos. Tarefa difícil. Lembrar de esquecer a própria pélvis. E o umbigo. Aquele buraco que nos separou da mãe. Aquele que a água do mar entra e faz bacia, preenchendo. Aquele de Iemanjá. Lembrar de ser só .Lembrar de lembrar aquilo que um dia tivemos que esquecer. Memória tem dessas coisas de umbigo. Memória tem dessas coisas de fadas.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Thessa

Seu nome rima com tear,
Com tecer.
Avessa,
E com tez.

Nossa amizade é,
com certeza,
travessia.

Atravessemos então,
e nossas diferenças se fazem
Chão
que pisamos,
para seguir.

Nessa alteridade, e
no caminho que se fez,
juntas, somos altezas.

domingo, 25 de novembro de 2012

Lupa



Costumo aumentar histórias
Quando elas são historias que
Merecem viver
Em mim

Perdurar é fazer viver
O que passou.

Não aumento histórias banais
Elas não merecem reaver
Com meu destino 

O tempo apaga, mas 
A memória acende

E do fogo que foi,
Eu-você
Da banalidade de uma noite clara,
Só tem cinza
E um pouco de vazio.

Não te aumento
E você é pequeno.

Doce criatura infantil,
Meus olhos nunca serão lupa pra você .

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Ademais

Ser em demasia, é para poucos.
Flanar, flutuar, voar, até reconhecer
O inexorável peso de viver
Em gravidade.

O peso do mundo nos olhos
A responsabilidade de ter
Em si
Para si
Para os outros
O peso daqueles que não sabem suportar
-Eu suporto por vocês, ele diz.

Desejo eterno de ser pai.
A tentativa de ser etéreo
Se junta
Ao inevitável peso de ser
Para outro
Aquilo que se é.

Para si:
O mundo é meu, e seu.
Mas se eu puder, eu sofro por você.

A minha eternidade se faz assim:
Sou, mas te carrego.
E vamos voar juntos,
Quando possível.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Menstruar a lua

É sempre nela,
na lua,
a mesma,
que meu corpo fabrica sangue.

Devolve à Terra o peso de parir
o mundo todos os dias,
uma vez por mês.

O sangue é um prazer,
relaxado,
que escorre, afoito,
pro ralo da terra.


Menstruar é
ser lua,
cada mês.

Lua Nova, chega logo!
Preciso e quero
jorrar sangue.