terça-feira, 12 de maio de 2015

Eu digo que eu sinto falta dele.
Ele diz que ele sente falta na minha ausência. Mas que estando ausente estou sempre presente. Eu digo que com ele eu aprendi que o amor tem mais a ver com ausência do que com presença. Ele diz que não entende.Eu digo que amamos a ausência um do outro, apesar de sempre ter achado que amor tinha mais a ver com transbordamento de presença. Ele diz que não entende, e ri. Eu digo que sofro pela ausência dele, que talvez eu tenha que me ausentar de nós, porque já não é possível tanta ausência. Ele diz que espera que eu fique. E eu dizendo que vou, fico. Dizendo que fico, me imagino indo. Continuo dizendo que amo nosso amor ausente, odiando o presente da nossa relação. A distância tem dessas coisas de ilusão. A gente ama o que imagina que a pessoa faria caso ela estivesse em algum lugar desse ir e vir. Eu digo que ele nunca está. Ele diz que está sempre, eu é que não o vejo. Ou não o permito estar. Já não sei mais do que nos acusamos, se eu ali nem estou, e por não estar, o acuso porque eu fui embora. Em indo embora acabo voltando pra onde supus deixar. E quando volto ele nem soube que eu fui. Mas toda vez que eu vou embora eu acabo indo, indo pra nossa relação. A nossa relação é esse eterno ir e vir, estar lá e cá. Já não sei mais onde eu estou, onde não estou. Porque onde eu menos estou é onde mais estou. E onde ele menos está é onde ele está mais. Ele diz que por ele tá tudo bem: ele ama a presença da minha ausência. Eu odeio a ausência da presença dele. Nesse não estar estando e nesse estando só e junto, viramos um nó. Eu já não sei mais se estou só quando ele está ou se estou só quando ele não está. Já não sei se ele está ou estará. Acho que não. Ele diz que vem e nunca vem. Meu sonho é acabar com a esperança e na ausência dele não supor sua presença. Mas a esperança falha diante do amor. Sempre achei que o amor tinha mais a ver com presença. Mas acho que ele tem mais a ver com ausência.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

hoje eu quero ter o que não posso ter, talvez porque me encontre em uma prisão, construída por mim mesma, onde existe o não, antes do ter. as prisões seriam estas, constituídas pela privação, negação última de uma liberdade. hoje eu não posso ter algumas coisas, apesar de trabalhar para atingir, e saber que é assim que funcionam as utopias e as escolhas que são feitas, re-feitas, todos os dias: para que sigamos caminhando. aqui me apoio naquele que tinha veias abertas, pois assim me sinto. já não sei diferenciar o meu sangue daqueles que estão à minha volta. viemos todos de um mesmo ímpeto de vida, apesar de acharmos que somos tão inexoravelmente diferentes. viver dói.


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Acordei nesse misto de raiva, medo, compaixão, desespero, vontade, e tudo isso o que o seu cheiro me desperta. Raiva de mim, porque, no limite,  desejei não te desejar - como se isso fosse possível. Dentro da lógica do desejo, o contrário é sempre o mais plausível.
 Mas eu não consigo imaginar estar ao teu lado e não te desejar. Por mais absurdo que seja esse desejo, a ausência dele seria qualquer coisa menos desejo.
Re-lação

Estar em uma relação,
ralação,
uma reeleição
constante.

O canditato a ser seu,
torna-se o anti-laço,
que se emaranha em nós,
facilmente desatáveis, mesmo que em essência,
nós.

Desato, descarto, desacato o candidato.

Piso em sua face,
mas me vejo em seus pés.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Uma das maiores belezas do devir psicólogo/analista está na capacidade de outrar-se. A cada encontro, torno-me outra coisa: impossível ser o que era, difícil saber o que se torna. O bonito é o movimento: inevitável, dolorido, abismal. Dá pra sentir o vento de cada pessoa no corpo inteiro.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

acorda, lembra do sonho, lembra do sonho e lembra que tá acordada. faz café, pensa no que tem que fazer. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

há uma espécie de lapso temporal que definem todas as coisas, onde a gente acha que encontrou alguém, e depois nos damos conta da nossa solitude. uma espécie de tentativa de fingir que não houve impacto algum, o encontro. numa tentativa desenfreada de ser um pouco mais normal. mas a verdade é que eu me encontro com você tantas vezes antes da gente se encontrar, que nem mesmo o universo seria capaz de dar conta de tantas voltas para que isso acontecesse.