quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Acordar hoje
Emanando cheiros
De ontem

Levantar hoje
Suspirando anseios para amanhã

Comer hoje
A comida que queria comer:
Você.

Sonho sonhado
É sempre no passado.

Queria e
Quero
Você.


Hoje.

Pena!
Resta sonhar.

São só restos de um desejo.



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

o inferno e nós

Assistir ao filme Fausto nos leva a uma genialidade quase imbecil.
Como poderia o inferno ser grotesco e ao mesmo tempo tão sutil, e bonito?
Como vender a alma ao Diabo e nos livrarmos do peso da sexualidade camuflada pode ser tão assustadoramente libertador?

[Ainda em construção]

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

pintura antropofágica

Tela interminada repousa ao lado da cama.
O meu sorriso, recém-acordado, ecoa um silêncio
[antropofágico.

O artista dorme ao meu lado.
Cabelo bagunçado, sua nudez é
avassaladora.
O corpo, que fora devorado por mim, dormia.
Eu, sorria.

Devorava-te com os olhos,
e suspirava:
Devorei-te
A ti.

Doce lembrança, que ao cair o dia,
 se assemelhava a um sonho criado,
 irreal.

Caio em mim:
sou só um corpo que viveria para te comer.
Com os olhos, com a boca, com os lábios,
com tudo o que posso.

É que contigo eu não posso,
transborda em mim.

És a tela interminada.
Aquela que eu gostaria de pintar.
Aquela no abismo da minha fantasia,
e do real.

Sonho antropofágico.
Comer-te,
a ti.

Pintar-te,
pra mim.
Criar-te na beira da minha cama.






terça-feira, 31 de julho de 2012

às vezes a gente se engana.
mas se engana de verdade.
esconde a verdade com uma mentira tão grande, que o que não é acaba virando o que é.
mas não dá de ser assim muito tempo.
algumas coisas pulsam.
eu não consigo te esquecer.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

estranhar o estranhamento

Um pouco do que somos diz respeito àquilo que se é esperado, e o que esperamos. Expectativas.
O script é construído todos os dias, mas o espaço do palco é limitado. Os personagens caminham por algumas linhas argumentativas, figuram figurinos, encenam pessoas.
Ao  assistir Foi Carmem, de Antunes Filho, fomos para assistir o que se esperava ver. A mesma personagem que visualizamos em cenas épicas e momentâneas na TV. Para além de seu rosto, seus adornos, pala além de sua fala, aquilo que ela representa.

É o que acontece em uma das cenas, onde o ator faz uma verborragia em uma língua desconhecida, e menciona palavras como banana, nanica, samba, e soliloca alguns ritmos. É o necessário para entender que se está falando de Carmem. Em uma outra cena,  ao vermos-na dançando compulsivamente a espera de um sorriso, ela joga confetes para cima, e joga, e joga. E ela só suja o palco. Encenamos o atônito, junto ao ator no palco, que a observa, sem reação.
É o poder do estranhamento, que Antunes teve a brilhante capacidade de nos trazer. Invertem-se os papéis. Em um poder metalinguístico brilhante somos Carmem, e somos platéia, e encenamos no palco o desespero da obrigação de ser alegre e representarmos esse Brasil brasileiro.
Olhar Carmem sem ver seu rosto, dançando com o corpo de costas, à semelhança curupira, numa imagem carnavalesca, sombria, desesperadora e em silêncio.
Silêncio.Ver Carmem em silêncio e com movimentos lentos.
É tudo o que não se espera da musa tatuada na calçada da fama.

Afinal, o que causa estranhamento?
O diferente? O irreverente? O fazer-aquilo-que-não-se-é-esperado?
A peça é esquisita. Decepciona.

Me lembrou de uma entrevista que Deleuze dá depois de receber uma crítica. Está naquele livro, Conversações.
"Com a ajuda do fora, faremos uma coisa tão diferente em termos de linguagem e de pensamento, que as pessoas que nos esperam serão obrigados a dizer: eles ficaram completamente loucos, ou são safados, ou foram incapazes de continuar. Decepcionar é um prazer. Nem de longe queremos nos fingir de loucos, mas enlouqueceremos à nossa maneira e na nossa hora, não precisam nos empurrar".

Decepcionemos então.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

-Mas o que temos?
-Como assim o que temos?
-É, qual o nome?
-Nome?
-É, como explicar pras pessoas, pro mundo?
-Ah, o que temos não tem nome.
-...Nossa, é mesmo.
-Temos eu e você.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Há três noites eu sonho com você.
Nessa frase existe o eu, o sonho, o você.
Existe o que já não existe mais,
 que é a possibilidade de sonhar junto com você.
Existe o eu, que sonha.
O você longe.
O você que é ausência em mim.
Existe o eu, que sonha com você.
Com você em mim.
É um sonho: termina quando o dia começa.
Eu e você: um sonho.
Sonhar com você.