segunda-feira, 19 de maio de 2014

acorda, lembra do sonho, lembra do sonho e lembra que tá acordada. faz café, pensa no que tem que fazer. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

há uma espécie de lapso temporal que definem todas as coisas, onde a gente acha que encontrou alguém, e depois nos damos conta da nossa solitude. uma espécie de tentativa de fingir que não houve impacto algum, o encontro. numa tentativa desenfreada de ser um pouco mais normal. mas a verdade é que eu me encontro com você tantas vezes antes da gente se encontrar, que nem mesmo o universo seria capaz de dar conta de tantas voltas para que isso acontecesse. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

verde

As cores eram todas inevitavelmente verdes, desde a água que escorria na pedra, até os tons das peles, que pelo frio da água tinham essa tendência de ficarem arrepiadas e ecoarem o verde ao redor.

Foi num relance, em meio a correnteza e um mergulho demorado, que ao me levantar te vi, destacado desse cenário absurdamente natural. Aquilo tudo estava em paz demais - se é que essa combinação é possível.

O tempo estava desgarrado de si mesmo, o relógio já não importa quando cai água da pedra, ininterruptamente... 

A expansão do tempo, dada, alargou-se ainda mais quando olhei dentro dos teus olhos, tão castanhos quanto aquelas pedras. Foi inevitável, e nada mais seria automático a partir dali. Nem mesmo a água da cachoeira, que está fadada a cair;
 até ela se desmontou.

Impressionante o quão absurdo pode parecer algo tão natural. 

domingo, 9 de março de 2014

ão

     Todos os dias que sucederam o nosso encontro, foram dias que ocorreram tão somente após o nosso encontro. Como se toda a cadeia de sentidos decorridos após este evento estivessem em função desse primeiro, ou em consequência dele - elevados a potência mística de um reencontro. Uma mistura dessas denominações causa e consequência, os quais o nosso encontro teve o poder de dissolver.  Antes e depois pararam de fazer efeito, como se tudo fosse uma só coisa - resumida a ter te encontrado, querer te encontrar de novo, e sentir os efeitos desse encontro.

    Poucas vezes temos essa sensação de que o controle se esvaiu, com o desmonte de todos os discursos - os planos precisam ser refeitos, reinventados, dilacerados.
   Dá vontade de cantar trechos de músicas, misturados, numa tentativa de compor uma canção, fazer colagens com imagens em revistas, numa tentativa de inventar alguma imagem que se assemelhe a sinestesia do nosso encontro. Na minha imaginação, misturo perfumes com novas plantas, numa tentativa desmedida de ter seu cheiro. Aprendo a plantar pra ter uma horta na casa imaginária que eu construí para nós dois. Dá vontade de pular de pára quedas numa tentativa de fazer você ecoar no ar, realizar o curso de mergulho estatizado no papel há anos, numa tentativa de soltar você pelas bolhas de ar. 

   Vontade de arrumar o quarto, numa ilusão intempestiva de que você o visite.  Dá vontade de ser uma pessoa melhor, e pior, e ser o que quiser ser, só pra dizer pra você que eu acordei me sentindo livre ao seu lado. Vontade de fechar os olhos e refazer o nosso encontro em imagens oníricas, numa sensação que tudo aconteceu de maneira tão avassaladora, que não podia ser real, apesar de sentir os efeitos seus em mim em todos os poros que respiram. Vontade de ser coberta pelos seus buracos, suas vontades, seus medos, te consumir, fazer com que os nossos buracos ecoem. Respirar o seu ar, fazer os seus olhos encontrarem os meus. 
   Você me dá vontade de fazer tudo no aumentativo. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

do eterno retorno

Acho que o problema em retornar, está em retomar uma vida já em movimento, como se ela existisse independente da força motriz de mim mesma; e que, no limite, poderia não existir. Buscar os sentidos das escolhas tomadas num passado, que dá voltas em si mesmo. Consequências. Voltar pra uma vida em movimento, ainda que seja a sua, é vertiginoso; como pegar um trem em movimento na estação, ainda que seja o seu, agendado, comprado, sonhado. É correr atrás daquilo que é supostamente seu, agenciado, sacramentado, fundamentado, como se as coisas tivessem uma ordem certa em meio a esse caos. Então, ao pegar esse trem em movimento, eu me faço algumas perguntas, e a primeira é a se eu tivesse o perdido, e ficado na estação. Os jargões do era pra ser, ou qualquer outro ficam sempre temerosamente esvaziados. No fundo, acredito que queria poder voltar e inventar tudo de novo, uma nova rotina, me inventar de outras formas, um clichê somado ao peso de existir. Um yng e yang das sacramentações: o jargão de que a vida é assim versus o clichê que podemos nos reinventar todos os dias. Algumas coisas são tão óbvias socialmente como namorar homens, fazer sexo com estranhos, querer casar, querer ser mulher de verdade, homem de verdade, querer, querer, querer, ter uma formação, ser bem sucedido, ser magro... Não saber o que se quer, afinal, me remete a pensar nas minhas obvieidades ainda nem pensadas, nem estruturadas. Por um lado, diante de tudo, eu gosto de trabalhar com direitos humanos ; Mas sinto que é como se eu tivesse que me render. Todos os dias eu dou minha vida a algo que eu não sei se faz sentido. Acho bonito re-significar as escolhas, e talvez eu faça isso por toda a minha jornada, por mais acertadas que possam parecer as minhas escolhas. Sou gay? Sou bi? Quero ter um relacionamento? Quero conhecer e dar a volta ao mundo? Quero fazer artes? Talvez toda pergunta carregue um sim como resposta. Mas eu tenho medo disso.
Ainda.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

E no final de tudo, talvez nunca tenha produzido tantos efeitos, quanto produzo em períodos de crise.
Gosto muito, também, de fazer análises silenciosas com as sugestões e frases de efeitos que me são ditas, nestas tentativas de amenizar os próprios efeitos que essa crise ocasiona em mim, e por consequência nestas mesmas pessoas que eu afeto, com minhas afetações. Neste ciclo contagiante,  sinto as tentativas de inércia, minha, e dos meus pares - algumas rupturas precisam ter efeitos rasgados. Há de se saber que tomar conta do que não é contável é sempre muito danoso. E buscar as beiras humanas podem nos levar aos abismos. Eu sinto, de fato, que a vida é um eterno tateamento, ou tentativas de tatear esse vazio.
E vontades de se jogar nesse vazio.Alguns dizem-me que preciso meditar antes de fazê-lo, outros me alertam para o que estou carregando, e provavelmente perderei com a queda. Outros, ainda, me propõem a fazer uma previsão do vento, pra saber em quê direção o pulo pode ser menos prejudicial. Não sei pra onde estou indo, só sei que estou cansada de carregar alguns pesos que não são meus.
E na beira disso tudo, a gravidade me chama. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Buena Brasília

Sair de Brasília, viajar, qualquer sensação que nos tire dessa bolha operante, sempre me remete a pensar na esquisitice que é morar nesse lugar. Ao mesmo tempo que quando vivo o cotidiano do plano piloto, me deslumbro a cada dia, é inevitável não constatar a absoluta insensatez que essa cidade foi construída e se constituiu. Talvez por causa dessa mesma força insensata e construída por tantos imigrantes, peregrinos ou nômades, eu me sinta tão cidadã do mundo, e pertencente a tantos lugares  - que por essência sempre serão absolutamente diferentes da minha terra natal. Pertencer a um lugar tão único me remete a pensar que pertenço a muitos lugares e a nenhum.

Ontem, andando pelas ruas de Buenos Aires, tanta coisa aconteceu. Passou por mim um garoto, ouvindo música e cantando, com força e bravura, indelével a qualquer constatação julgamentosa que passasse por si. Passei em frente a uma loja de velas, que além de exalar quentura em meio aos ventos atravessados e frios, exalava cheiros díspares e harmônicos. Continuei andando a esmo - um ímpeto desconhecido por quem habita Brasília. Passei em frente a uma rádio, onde trabalhadores operavam suas falas no studio em uma espécie de vitrine. Os vi falando, e não o escutava. Quanta contravenção, estamos habituados a sempre ser o contrário disso. 
Estar longe é uma sensação de bem-estar apavorante, o abismo do mundo se mostra à nossa frente, e podemos perceber alguns apegos completamente desnecessários. A rotina se mostra como uma volta em torno de um mesmo eixo, levando a lugares talvez mesmos, talvez outros. Talvez só precise fazer sentido. E quando não faz? Como continuar lidando com a própria vida?
Viajar me remete a uma insensatez obsessiva de desapegar de mim mesma.