quarta-feira, 6 de maio de 2015

hoje eu quero ter o que não posso ter, talvez porque me encontre em uma prisão, construída por mim mesma, onde existe o não, antes do ter. as prisões seriam estas, constituídas pela privação, negação última de uma liberdade. hoje eu não posso ter algumas coisas, apesar de trabalhar para atingir, e saber que é assim que funcionam as utopias e as escolhas que são feitas, re-feitas, todos os dias: para que sigamos caminhando. aqui me apoio naquele que tinha veias abertas, pois assim me sinto. já não sei diferenciar o meu sangue daqueles que estão à minha volta. viemos todos de um mesmo ímpeto de vida, apesar de acharmos que somos tão inexoravelmente diferentes. viver dói.


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Acordei nesse misto de raiva, medo, compaixão, desespero, vontade, e tudo isso o que o seu cheiro me desperta. Raiva de mim, porque, no limite,  desejei não te desejar - como se isso fosse possível. Dentro da lógica do desejo, o contrário é sempre o mais plausível.
 Mas eu não consigo imaginar estar ao teu lado e não te desejar. Por mais absurdo que seja esse desejo, a ausência dele seria qualquer coisa menos desejo.
Re-lação

Estar em uma relação,
ralação,
uma reeleição
constante.

O canditato a ser seu,
torna-se o anti-laço,
que se emaranha em nós,
facilmente desatáveis, mesmo que em essência,
nós.

Desato, descarto, desacato o candidato.

Piso em sua face,
mas me vejo em seus pés.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Uma das maiores belezas do devir psicólogo/analista está na capacidade de outrar-se. A cada encontro, torno-me outra coisa: impossível ser o que era, difícil saber o que se torna. O bonito é o movimento: inevitável, dolorido, abismal. Dá pra sentir o vento de cada pessoa no corpo inteiro.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

acorda, lembra do sonho, lembra do sonho e lembra que tá acordada. faz café, pensa no que tem que fazer. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

há uma espécie de lapso temporal que definem todas as coisas, onde a gente acha que encontrou alguém, e depois nos damos conta da nossa solitude. uma espécie de tentativa de fingir que não houve impacto algum, o encontro. numa tentativa desenfreada de ser um pouco mais normal. mas a verdade é que eu me encontro com você tantas vezes antes da gente se encontrar, que nem mesmo o universo seria capaz de dar conta de tantas voltas para que isso acontecesse. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

verde

As cores eram todas inevitavelmente verdes, desde a água que escorria na pedra, até os tons das peles, que pelo frio da água tinham essa tendência de ficarem arrepiadas e ecoarem o verde ao redor.

Foi num relance, em meio a correnteza e um mergulho demorado, que ao me levantar te vi, destacado desse cenário absurdamente natural. Aquilo tudo estava em paz demais - se é que essa combinação é possível.

O tempo estava desgarrado de si mesmo, o relógio já não importa quando cai água da pedra, ininterruptamente... 

A expansão do tempo, dada, alargou-se ainda mais quando olhei dentro dos teus olhos, tão castanhos quanto aquelas pedras. Foi inevitável, e nada mais seria automático a partir dali. Nem mesmo a água da cachoeira, que está fadada a cair;
 até ela se desmontou.

Impressionante o quão absurdo pode parecer algo tão natural.